Genes do envelhecimento: estudo revela marcas moleculares do tempo no sangue humano
Por décadas, cientistas tentaram decifrar como o envelhecimento se manifesta no nível molecular. Agora, um amplo estudo internacional aponta que a resposta pode estar escrita simultaneamente no DNA e na atividade dos genes do sangue.

Pesquisadores da Universidade Harvard, Stanford e outras instituições analisaram dados genéticos e epigenéticos de mais de 4.600 amostras de DNA e 3.500 perfis de expressão gênica, provenientes de diferentes populações e faixas etárias. O resultado foi a identificação de 106 “genes do envelhecimento”, cujas alterações são consistentes, replicáveis e associadas a desfechos clínicos graves, como maior risco de morte.
“Descobrimos que apenas observar mudanças químicas no DNA não é suficiente. O que realmente importa são as alterações que também impactam a atividade dos genes”, afirma Mahdi Moqri, pesquisador da Harvard Medical School e autor principal do estudo.
DNA muda, mas nem sempre fala
O envelhecimento é conhecido por provocar alterações na metilação do DNA, um mecanismo epigenético que regula a ativação ou silenciamento dos genes. Essas mudanças são tão previsíveis que deram origem aos chamados “relógios epigenéticos”, capazes de estimar a idade biológica de uma pessoa.
No entanto, o estudo mostra que muitas dessas alterações não resultam em mudanças reais na expressão dos genes. Um exemplo clássico é o gene ELOVL2, amplamente usado como marcador de idade: apesar de sofrer forte metilação com o passar dos anos, sua atividade permanece praticamente inalterada.
“Isso sugere que algumas marcas do envelhecimento são biologicamente neutras, não afetam o funcionamento das células”, explica Vadim Gladyshev, coautor do estudo.
A força da integração molecular
Para contornar esse problema, os cientistas combinaram dados de epigenética (metilação do DNA) e transcriptômica (atividade dos genes). Essa integração revelou um grupo seleto de genes que ganham metilação e, ao mesmo tempo, perdem atividade com a idade — um sinal claro de impacto funcional.
Esses genes estão fortemente ligados ao sistema imunológico, especialmente às células T, responsáveis pela defesa do organismo. Entre eles estão genes como CD27, CD28, TCF7 e CD248, fundamentais para a renovação e ativação das células de defesa.
Segundo os autores, isso ajuda a explicar por que o envelhecimento está associado à queda da imunidade. “As alterações moleculares que observamos refletem um enfraquecimento progressivo do sistema imune”, destaca Moqri.
Envelhecer também aumenta o risco de morte — e o DNA mostra isso
O estudo foi além da biologia básica e avaliou se essas marcas moleculares se relacionam com desfechos clínicos. Em duas grandes coortes independentes, com acompanhamento de até 14 anos, os pesquisadores observaram que alterações em determinados genes do envelhecimento estavam associadas a um aumento de 30% a 75% no risco de mortalidade, por desvio padrão de metilação.
“Os genes identificados por essa abordagem integrada são muito mais eficazes para prever risco de morte do que marcadores epigenéticos tradicionais”, afirma Gladyshev.
Importante destacar que essas associações permaneceram significativas mesmo após ajustes para sexo, idade e composição das células do sangue, indicando que os efeitos não são apenas consequência da mudança no número de células imunes ao longo da vida.
Um novo caminho para terapias antienvelhecimento
Os autores acreditam que os chamados genes multi-ômicos do envelhecimento podem se tornar alvos estratégicos para intervenções futuras, incluindo terapias de edição epigenética e monitoramento da idade biológica.
“Nosso trabalho mostra que integrar diferentes camadas de informação molecular é essencial para entender o envelhecimento humano de forma funcional e clinicamente relevante”, conclui Moqri.
A descoberta abre caminho para biomarcadores mais confiáveis e, possivelmente, para estratégias que ajudem a retardar o declínio biológico associado à idade — um dos maiores desafios da medicina moderna.
Mais informações
Moqri, M., Ying, K., Poganik, JR et al. Epigenética e transcriptômica integrativas identificam genes do envelhecimento no sangue humano. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67369-1